sexta-feira, novembro 11, 2005

A Letra Encarnada

(...)
A rapariga era alta, e sua a figura, em ponto grande, de uma perfeita elegância. O cabelo era escuro e abundante, e tão luzídio que reflectia bem o sol; a cara, além de bela em feição e cor, tinha o poder impressivo que lhe dava o traço negro das sobrancelhas e o olhar também negro e profundo. Era senhoril, também, à maneira da fidalguia feminina daqueles tempos; caracterizada por um certo porte e dignidade mais que pela graça delicada, subtil e indescritível que hoje se tem por característica dessa fidalguia. Nem nunca tinha Hester Prynne parecido mais senhoril, no sentido antigo da palavra, que quando saiu a porta da cadeia. Aqueles que antes a haviam conhecido, e que esperavam vê-la abatida e ensombrada por uma nuvem de desgraça, admiravam-se, pasmaram mesmo, ao ver como a sua beleza irradiava, e tornava uma auréola a própria desventura e ignomínia que a envolviam. Será verdade que, para um observador sensível, havia nisso qualquer coisa de subtilmente doloroso. O seu trajo, que, aliás, ela mesma tinha feito na cadeia para uso nesta ocasião, e que tinha delineado pela sua fantasia, parecia exprimir a atitude do seu espírito, o desafio desesperado da sua disposição, pela sua singularidade estranha e pitoresca. Mas o ponto que chamava todos os olhares, e, por assim dizer transfigurava a pessoa - de sorte que tantos homens como mulheres, que haviam conhecido bem Hester Prynne, agora sentiram a impressão de que a viam pela primeira vez - era aquela LETRA ENCARNADA, tão fantasticamente bordada e iluminada sobre o seu seio. Tinha o efeito de um encantamento, que a arrancava às suas relações normais com a outra gente, e a fechava num mundo apenas seu.

Nathaniel Hawthorne (1804 - 1864)
A Letra Encarnada
(tradução de Fernando Pessoa)

20 comentários:

Anónimo disse...

Lembra-te alguém?

blogdabalta disse...

Alguém que imagino, sim, Pirralha...

Anónimo disse...

Não, carequinha, tenta outra vez. Graaauuu.

blogdabalta disse...

Cão anti-social? Pedro "não-vejo-daqui-a-ponta-do-meu-nariz" Serpa?

Anónimo disse...

Qd escrevi o 1º post estava a pensar numa mulher misteriosa, charmosa, sedutora...

Cachorro Anti-Social disse...

He, alguém chamou?

Lua de Outono disse...

sente-se aqui resquícios de sensibilidades que se foram perdendo nos caminhos e encruzilhadas passados...

a procura continua...

blogdabalta disse...

...mas que continuam acesos na chama de corações mais antiquados, quiçá!

Anónimo disse...

Ai carequinha... Tirava-te o boné e fazia-te cafuné no cabelo que não tens

blogdabalta disse...

Ando sem boné e sem tempo para cafuné...mas bem gostaria...bem que gostaria!

Anónimo disse...

só para dizer que não tenho nada a ver com o que foi aqui escrito, pá

pedro

aiaminhavida!!! disse...

Eu também não, Pedro...eu também não...

A disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
A disse...

podias ter posto algo menos enigmático, dado que é a minha primeira visita... já não há respeito :p

bem, vou ver os outros

O Blog da Balta,Bá! disse...

A., tens toda a razão. Soubesse eu que a tua primeira visita recairia neste post e...teria posto gajas nuas! Esperando sempre, é claro, que as gajas nuas não sejam demasiado enigmáticas para ti, caro A., caríssimo!

A disse...

são um pouco, até porque nunca vi nenhuma gaja nua... acho eu. mas já vi mais posts teus e a duvida inicial esbateu-se um pouco

tens que ter mais paciência, com o teu... caríssimo

blogdabalta disse...

a, sempre, paciência, sempre...

A disse...

...mas não te esqueças do post das gajas nuas, pareceu uma ideia com pernas para andar, ou fugir :)

blogdabalta disse...

E tudo começou com uma tradução do Pessoa...

O Blog da Balta,Bá! disse...

Mas posso confirmar que a miúda em questão é muito gira!